FLAVIO CURY
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DESEXISITR

The word ‘Desexistir’ is also the title of a video installation exhibited at Swissnex, Rio de Janeiro.

At the beginning of 2017, a group of MFA (Master of Fine Arts) students from ZHdK - Zürcher Hochschule der Künste travelled to Greece (Lesbos and Mytilene) and Lebanon. The proposed theme for the journey was “Art and Crisis”. How can “art” react to a humanitarian crisis, without instrumentalizing it? The group visited the main refugee entry points in Greece; gaining a condensed view of the political tensions in the region thanks to meetings with artists, activists, and government officials.

My response to the journey and to the program is a reflection about the concept of borders as fictional limits, invented by men. In this work, I investigate the absurd existence of borders in the high sea and, and in a wider spectrum, the persistent and invisible borders that segregate people.

 

 

The images are from my personal archive; they are projected on the walls of circular space of the exhibition. The video projectors spin around a central axe, and the black pilar functions like a lighthouse.

 

 

 

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Desexistir para transviver

 

A produção de Flávio Cury permeia questões das impermanências e das essências dos significados. Em Desexistir, o artista apresenta uma instalação composta por duas projeções de cenas e montagens trazidas de seu arquivo pessoal de imagens. Numa delas, em uma única tomada, a singela ação de um braço toca de leve a água que corre contra um barco navegando a todo pano. Tal como a mão de Richard Serra, em Hand Catching Lead (1968), no qual sua mão direita, abrindo e fechando repetidamente, tentando pegar pedaços de chumbo que caem, a ação de Cury é um atento ao impalpável. Enquanto isso, a outra projeção oferece abundantes cenas de águas, ora turbulentas, repletas de ondas e correntes, ora serenas, com brilhos que balançam pelas suas superfícies. Em nenhum momento há referências de tempo ou de lugar. O tratamento das cores, entre tons vermelhos alaranjados a um leve azul, dificulta ainda mais apreender se água doce ou se de mar, se dia ou se noite.

 

As imagens são projetadas paralelamente e em movimento circular, percorrendo as paredes do espaço redondo da Swissnex, como um grande farol. No entanto, a simulação desse corpo luminoso não intende amparar seus navegantes por viagens ou travessias. Pelo contrário, ele parece apenas lembrar das próprias águas em que se situa. Das imagens iluminadas não se avista beiras nem fronteiras. Não há lá, nem cá, nem ao menos sinal de terra à vista. Seria ali a terceira margem do rio?

 

O sentido de desorientação é enfatizado pela paisagem sonora que completa a instalação. Criada a partir da síntese granular do prelúdio da Suíte para violoncelo solo nº 1 em Sol Maior, de J. S. Bach, a desarmonia da esquemática composição barroca rui-se em fragmentos que se formam por diferentes velocidades, volumes e tons, como as águas em constante movimento. Assim como as projeções, o som igualmente circum-navega a sala de exposição.

 

Dentre náuseas e mal-estar, o homem navega as águas que constituem um grande sertão. Há de se ter largo fôlego para não se afogar, ou, para usar as palavras criadas e ressignificadas por Guimarães Rosa, é tal como se fosse preciso desexistir para transviver por entre as ideias e a realidade. Navegar é preciso, viver não é preciso, escreveu Fernando Pessoa. Au revoir! Boa viagem!

 

Giovanna Bragaglia